MARRAKECH, 30 DE SETEMBRO

Uma parte importante do trabalho da BCA acontece muito longe da BCA.

França, Itália, Grécia, Croácia, Portugal, Baleares, Alpes, St. Barths e Marrocos estão entre os lugares aos quais dedicamos uma atenção contínua. Não porque pretendemos conhecer o mundo inteiro da mesma maneira, mas porque acreditamos que repertório se constrói com profundidade.

Nesses lugares, cultivamos relações com partners que vivem o destino, acompanham suas transformações e conhecem de perto as propriedades, as pessoas e as particularidades que dificilmente se revelam para quem observa de fora. São relações construídas ao longo do tempo, capazes de manter nosso repertório próximo da realidade mesmo quando estamos a milhares de quilômetros dali.

Há pessoas nos lugares onde construímos viagens.

Essa presença local participa das nossas escolhas e nos permite compreender muito mais do que aquilo que uma propriedade revela em fotografias, descrições ou fichas técnicas. Há, no entanto, uma camada desse conhecimento que só se constrói estando lá: a experiência.

Por isso, uma vez por ano, escolhemos um desses territórios e fazemos o caminho inverso. Em vez de o conhecimento local chegar até nós, somos nós que vamos até ele.

Em 30 de setembro, chegaremos a Marrakech.

Já trabalhamos com propriedades na cidade e já construímos viagens para famílias ali. Dessa vez, o movimento é outro. Estaremos ao lado de pessoas que vivem Marrakech, diante de diferentes formas de habitar a cidade e seus arredores, conhecendo propriedades de arquiteturas, escalas e localizações distintas. Algumas estão dentro da cidade, outras para além de suas muralhas. A programação também inclui residências privadas e encontros à mesa, porque há aspectos da hospitalidade que dificilmente se compreendem durante uma visita técnica.

Ainda assim, seria um erro transformar Marrakech em uma viagem de inspeção de produto. Casas, serviço e curadoria de hospedagem fazem parte do nosso trabalho, mas são pequenos demais para explicar uma cidade como essa.

Quanto mais estudamos Marrakech antes de chegar, mais percebemos que as propriedades são apenas uma das portas de entrada para compreendê-la. Há uma cidade organizada por outras relações com a casa, a privacidade, a água, o jardim, o comércio, os ofícios e a própria maneira de receber.

É por aí que começamos.

Quantas cidades existem dentro de Marrakech?

Fundada no século XI pelos Almorávidas, aos pés do Alto Atlas, Marrakech tornou-se um importante centro político, econômico e cultural do mundo muçulmano ocidental. Sua influência alcançou o norte da África e a Andaluzia e deixou marcas que permanecem não apenas em seus monumentos, mas na própria organização da cidade.

A Medina é uma das expressões mais evidentes dessa história. Reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Mundial desde 1985, conserva um tecido urbano formado ao longo de séculos por casas, mesquitas, souks, oficinas, jardins, pátios, vielas e praças.

Ali está Jemaa el-Fna, cuja importância vai muito além de sua arquitetura ou localização. O espaço cultural da praça também foi reconhecido pela UNESCO por tradições transmitidas por contadores de histórias, músicos, artistas e outras manifestações populares. É um lugar em que comércio, encontro e transmissão cultural continuam ocupando o mesmo espaço.

Mas Marrakech não termina em suas muralhas.

No início do século XX, durante o protetorado francês, Guéliz começou a ser construída sob outra lógica urbana, com avenidas mais largas, outra arquitetura e uma relação diferente com a rua. Hoje, galerias, restaurantes, lojas e espaços de design fazem parte dessa Marrakech contemporânea. Hivernage acrescenta ainda outra escala à cidade, marcada por grandes hotéis, restaurantes e uma vida urbana muito distinta daquela encontrada na Medina.

E existe a Palmeraie, onde a relação com Marrakech muda novamente.

Palmeraie não é simplesmente um bairro de Marrakech

A Palmeraie é uma extensa área de palmeiral nos arredores da cidade, historicamente ligada à paisagem de Marrakech e aos antigos sistemas de água e irrigação que tornaram possível o desenvolvimento desse território.

A presença das palmeiras antecede em muitos séculos os resorts, as grandes propriedades e as villas que hoje ocupam parte da região. A expansão urbana e turística veio depois e passou a se sobrepor a essa paisagem histórica. A própria UNESCO inclui a Palmeraie entre os elementos associados ao conjunto patrimonial de Marrakech.

É uma experiência espacial muito diferente daquela encontrada dentro das muralhas. Na Medina, há densidade: vielas estreitas, deslocamentos a pé, souks, comércio, vida urbana e casas que se protegem da rua e se organizam para dentro. Na Palmeraie, a escala se abre. Há mais terreno, vegetação, distância entre as propriedades, jardins e piscinas, e as casas podem estabelecer uma relação muito mais direta com o exterior.

Essa diferença muda o significado de uma escolha aparentemente simples. Uma villa na Palmeraie e um riad na Medina não são apenas duas opções de hospedagem. Propõem duas relações muito diferentes com Marrakech.

Em uma, a cidade está praticamente à porta e sua intensidade participa da experiência cotidiana. Na outra, espaço, paisagem, privacidade e distância passam a ter outro peso. Escolher entre essas duas experiências significa, portanto, decidir também qual relação uma família terá com o destino durante aqueles dias.

Essa é uma resposta que já precisamos dar quando construímos uma viagem. Estar em Marrakech nos permitirá aprofundar o repertório que existe por trás dela.

Riad, dar, villa. Estamos falando da mesma coisa?

Riad, dar e villa não são apenas três nomes para uma casa em Marrakech. Os termos são usados hoje com alguma flexibilidade pela hotelaria, mas suas origens revelam maneiras bastante diferentes de organizar a vida doméstica e a relação entre interior e exterior.

Dar, em árabe, significa casa. Na arquitetura tradicional da Medina, encontramos residências organizadas para dentro, normalmente em torno de um pátio central. O riad compartilha essa lógica de interioridade, mas está historicamente associado à presença de um jardim interno. Água, vegetação, sombra e os ambientes dispostos ao redor desse centro fazem parte de uma tipologia muito anterior à transformação de tantos riads em hospedagem.

Aquilo que hoje reconhecemos imediatamente como uma estética marroquina não surgiu apenas como escolha estética. Clima, intimidade, convivência e proteção da vida privada ajudam a explicar uma arquitetura na qual a fachada voltada para a rua pode revelar muito pouco, enquanto a riqueza espacial se concentra no interior.

É depois da porta que a casa acontece.

A villa estabelece outra relação com o espaço. Especialmente fora da densidade da Medina, pode ocupar terrenos maiores, incorporar jardins, piscinas e áreas externas e se abrir muito mais para a paisagem. Algumas preservam referências da arquitetura marroquina; outras assumem uma linguagem contemporânea.

A diferença, portanto, não está apenas no tamanho da propriedade, no número de quartos ou no nível de serviço. Está na própria maneira de habitar e na relação que a casa estabelece com aquilo que existe ao redor dela.

É uma distinção que queremos compreender melhor no próprio território: quanto dessas tipologias permanece nas propriedades contemporâneas, quanto foi adaptado à hospitalidade e, sobretudo, o que cada configuração produz na experiência de quem chega.

Por que tantos jardins?

Os jardins de Agdal e Menara fazem parte da história de Marrakech há séculos. Água, cultivo, sombra e vegetação não aparecem ali apenas como paisagismo. Estão relacionados ao clima, à irrigação e a uma tradição na qual o jardim ocupa um lugar muito anterior à hotelaria contemporânea.

Essa relação reaparece, de maneira interessante, na própria história de quem nos convidou para Marrakech.

Géraldine é uma das nossas partners internacionais. Francesa, nascida no Marrocos, cresceu com Marrakech presente na história de sua família. Anos mais tarde, depois de construir parte de sua vida profissional em Paris, voltou ao Marrocos para trabalhar ao lado do pai, um hoteleiro profundamente ligado à região.

A hospitalidade, portanto, não entrou em sua vida como um mercado a ser descoberto. Já fazia parte da história da família. Com o passar dos anos, Marrakech tornou-se casa, trabalho e convivência, uma combinação que lhe deu algo que nos interessa muito mais do que simplesmente conhecer bons endereços: contexto.

Géraldine conhece histórias, pessoas e códigos que quem chega de fora leva tempo para perceber. É justamente esse tipo de conhecimento que buscamos em nossa rede internacional, construído não apenas por quem trabalha com um destino, mas por quem convive com ele.

Foi a partir dessa relação que recebemos seu convite.

Um dos lugares ligados à história de sua família ocupa um antigo olival nos arredores de Marrakech. Quando começamos a pesquisá-lo, poderíamos ter parado na hospedagem, mas o jardim nos levou muito além dela.

Ali convivem oliveiras, cactos, bambus, lagos com nenúfares, horta, estufas e um roseiral com cerca de 12 mil roseiras. Há uma equipe permanente dedicada aos jardins e até o azeite é produzido a partir das próprias oliveiras.

Poderíamos simplesmente anotar: belo jardim. Mas seria pouco, porque a existência de um espaço assim nos devolve à própria história de Marrakech e abre questões que não cabem em uma descrição paisagística.

Por que os jardins atravessam de maneira tão persistente a história de Marrakech?

Qual é o papel da água?

Quanto há de função, cultura e representação nesses espaços?

E o que uma propriedade contemporânea preserva ou transforma dessa tradição?

São perguntas que queremos levar conosco quando estivermos diante dele.

E por que existe um souk dentro desse jardim?

No mesmo lugar existe uma interpretação contemporânea de um souk, outra palavra que o turismo tornou familiar sem necessariamente explicar tudo o que existe por trás dela.

Souk significa mercado, mas historicamente esses espaços também estiveram relacionados à produção, à especialização dos ofícios e à circulação de mercadorias e conhecimento. Em Marrakech, couro, metais, madeira, tecidos, cerâmica, tapetes, bordados e outros trabalhos artesanais fazem parte da estrutura econômica e cultural da Medina há séculos.

Nesse souk contemporâneo encontramos tapetes de diferentes tradições marroquinas, bordados feitos à mão, objetos produzidos a partir de antigos kilims, peças de designers locais, cerâmica realizada no próprio ateliê, pão preparado segundo métodos tradicionais e uma oficina que transforma vidro reciclado em peças sopradas. Segundo os responsáveis pelo espaço, seria hoje a última oficina desse tipo ainda em atividade no Marrocos.

É quando uma informação sobre um endereço começa a produzir perguntas sobre uma cultura.

Quem fez?

Como aprendeu?

De onde vem a técnica?

O que permaneceu?

O que foi reinterpretado?

O que chamamos hoje de artesanato marroquino ainda carrega conhecimentos transmitidos entre gerações?

E o que acontece quando o souk, historicamente ligado à vida econômica e social da Medina, reaparece dentro de um projeto contemporâneo de hospitalidade?

Nesse ponto, as perguntas são tão importantes quanto aquilo que já sabemos. Elas mudam a maneira de olhar para o que encontraremos ali: um objeto deixa de ser apenas um objeto quando começamos a compreender as pessoas, os conhecimentos e a história que existem por trás dele.

E onde entra a Marrakech contemporânea?

Outra parte da preparação nos levou ao Jardin Majorelle.

Jacques Majorelle chegou a Marrakech no início do século XX e dedicou décadas à construção de seu jardim e de um universo botânico e visual tão particular que um determinado tom de azul acabaria associado ao seu nome.

Yves Saint Laurent e Pierre Bergé conheceram Marrakech em 1966. Anos mais tarde, adquiriram o jardim e impediram que o terreno desse lugar a um empreendimento imobiliário. Mas a história não termina na preservação do jardim.

O antigo ateliê de Majorelle abriga hoje uma coleção dedicada à cultura Amazigh, população originária do norte da África, reunindo centenas de objetos provenientes de diferentes regiões do Marrocos. Ao lado, o Musée Yves Saint Laurent Marrakech, projetado pelo Studio KO, introduz uma arquitetura contemporânea em diálogo com a cidade e com a obra do estilista.

Majorelle, a cultura Amazigh, Saint Laurent e a arquitetura contemporânea poderiam ser tratados como assuntos independentes. Quando colocados lado a lado, porém, revelam uma questão muito mais interessante:

como Marrakech convive com aquilo que preserva e aquilo que reinventa?

É uma pergunta especialmente relevante em uma cidade onde tradição, turismo, artesanato, moda, design, arquitetura e hospitalidade continuam se encontrando e produzindo novas leituras uns dos outros.

30 de setembro

É com esse repertório que chegaremos a Marrakech.

Já trabalhamos com propriedades na cidade, já construímos viagens para famílias e contamos com conhecimento local para tomar decisões à distância. Agora faremos outro movimento: colocaremos nosso próprio olhar diante daquilo que até aqui conhecemos por pesquisa, trabalho, relações e pela experiência das pessoas que vivem ali.

A programação nos colocará diante de riads, dars e villas inseridos em contextos diferentes e com relações distintas com arquitetura, jardim, serviço e entorno. Algumas visitas acontecerão dentro da cidade; outras nos levarão para além de suas muralhas. Também haverá momentos em residências privadas e encontros à mesa, situações em que a hospitalidade poderá ser percebida para além do funcionamento formal de uma propriedade.

As casas importam, evidentemente, mas não apenas como lugares onde uma família poderia se hospedar. Elas também podem nos ajudar a compreender Marrakech.

Uma casa na Medina pode revelar algo sobre privacidade, densidade e vida urbana, enquanto uma villa na Palmeraie pode colocar diante de nós outra relação com paisagem, espaço e tempo. Um jardim pode nos conduzir à história da água na cidade; um souk, aos ofícios e às pessoas que preservam determinados saberes. Até uma mesa pode revelar códigos de hospitalidade que nenhuma fotografia de uma propriedade seria capaz de mostrar.

Chegaremos, portanto, com informação, repertório e relações construídas ali, mas sem confundir nenhuma dessas coisas com a experiência de estar no lugar.

No dia 30 de setembro, vamos diminuir a distância entre aquilo que sabemos sobre Marrakech e aquilo que só Marrakech poderá nos ensinar.

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