O mundo muda de tamanho quando viajamos com os filhos

Cada fase da família abre uma possibilidade de encontro. Como escolher viagens que acolham essas mudanças e deem espaço à descoberta.

Há viagens que começam muito antes de uma passagem comprada. Começam quando percebemos um interesse novo nos nossos filhos, quando sentimos falta de tempo juntos ou quando queremos dividir com eles alguma coisa que nos acompanha há anos. Uma paisagem, um esporte, uma história. Um modo de estar no mundo.

Recentemente, duas coisas me fizeram pensar sobre isso.

A primeira foi uma matéria do Estadão sobre viagens com crianças de diferentes idades. Na matéria, a professora e psicóloga Patrícia Quitério, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, fala sobre a oportunidade de ampliar o repertório infantil pelo contato com pessoas, costumes e ambientes diferentes. Uma frase me deteve: “Precisa ser uma experiência de desenvolvimento”.

Reconheci ali algo em que acredito e que acompanho dentro da minha própria família. Mas fiquei pensando no caminho entre essa ideia e a viagem que efetivamente organizamos. Como criar condições para que esse encontro com o mundo aconteça? O que muda nas nossas escolhas quando queremos ir além de preencher os dias com atrações?

Sou aberta a diferentes formas de viajar. Não acredito em uma fórmula universal para as férias de uma família. Conheço famílias que se encontram na natureza, outras em torno de um esporte, outras pela história ou pela gastronomia. Na nossa, as pessoas ocupam um lugar central. É por meio delas que muitas vezes nos aproximamos de um lugar.

Essa diferença merece atenção. Antes de escolher o destino, precisamos reconhecer o que desperta a nossa família.

Uma mesma viagem, dois modos de descobrir

Temos dois filhos: Helena, de 11 anos, e Gabriel, de 4. Ambos viajam conosco desde muito pequenos, por circunstâncias diferentes.

Helena nasceu no Chile e começou a viajar aos três meses. Seus primeiros anos aconteceram entre países e dentro de uma convivência que a vida expatriada naturalmente amplia. Havia diferentes origens, referências e maneiras de viver ao nosso redor. Percebo o quanto essa experiência faz parte da sua história.

Gabriel nasceu no Brasil e chegou a uma família que trabalha com viagens, muitas delas fora do país. A oportunidade de conhecer outros ambientes apareceu cedo para ele também.

Hoje, os dois podem estar no mesmo lugar e viver experiências bastante distintas. Aos quatro anos, há espaço para descobertas pelo movimento, pelos sabores, por uma brincadeira e pelas pequenas repetições do dia. Aos onze, podemos abrir conversas mais longas, investigar uma história e dividir escolhas.

Isso me lembra de observar cada filho para além da idade. O que chama sua atenção? O que o cansa? Quanto tempo precisa para se sentir à vontade? Há crianças que se aproximam rapidamente do novo; outras preferem primeiro observar.

Quando respeitamos esses modos de chegar, conseguimos apresentar o mundo sem apressar o encontro.

O interesse de alguém pode abrir uma viagem para todos

Um amigo tem uma ligação profunda com a história dos samurais e coleciona espadas. Agora, embarcou para o Japão com seus dois filhos, de 12 e 10 anos, para uma viagem de 14 dias. Só os três.

O que me toca nessa história é a possibilidade de os filhos conhecerem uma parte do pai por meio de algo que o mobiliza. Um interesse pessoal abre caminho para conversas, descobertas e tempo compartilhado.

Para que isso seja uma troca, também precisa haver espaço para o que interessa aos filhos. Podemos apresentar uma paixão nossa e aceitar que eles encontrem outra porta de entrada para o mesmo lugar. Uma viagem ganha profundidade quando existe essa circulação de curiosidade entre as gerações.

Nessa mesma família, há outra tradição que considero especial: uma mãe reúne seus quatro filhos adultos, uma vez por ano, para viajar apenas com eles. Como quando eram pequenos, embora todos já sejam outros. Nesse ano, o cenário foi a Escandinávia.

São duas formas de preservar uma relação enquanto ela muda. O pai com os filhos que crescem. A mãe com os filhos que já têm suas próprias vidas.

Viajar em família pode acompanhar todas essas fases. E pode assumir diferentes composições: todos juntos, um dos pais com um filho, irmãos, avós e netos. Há conversas que encontram espaço justamente quando mudamos quem se senta à mesa.

Como transformar essa intenção em escolhas concretas

Na BCA, a viagem começa pela família. Essa perspectiva tem consequências práticas: muda o ritmo, a hospedagem, os deslocamentos e até o que decidimos deixar de fora.

Comece pelo momento que vocês estão vivendo. Antes de abrir um mapa, converse sobre o que cada um espera daqueles dias. Descansar? Aprender algo juntos? Ter mais tempo para conversar? Compartilhar um interesse? Se as respostas forem diferentes, elas ajudam a compor a viagem. Escolha uma prioridade comum e reserve espaço para desejos individuais.

Convide os filhos a participar de escolhas possíveis. Para uma criança pequena, pode ser escolher entre duas atividades viáveis. Para uma maior, pesquisar um assunto que queira descobrir e ajudar a decidir como explorá-lo. Com adolescentes, vale discutir o próprio desenho da viagem e combinar momentos de autonomia compatíveis com o lugar e com a segurança. Participar envolve ter alguma influência real sobre o que vai acontecer.

Dê contexto antes de chegar. Um livro, uma música, uma receita ou uma conversa podem criar familiaridade com o destino. Escolha uma referência que tenha relação com o interesse do seu filho. Quem gosta de cozinhar pode se aproximar de um lugar pelos ingredientes; quem gosta de desenhar, pelas formas de suas construções. Deixe perguntas abertas para serem exploradas durante a viagem.

Planeje o ritmo com o mesmo cuidado dedicado às experiências. Com filhos pequenos, sono, refeições e pausas precisam caber no dia. Uma atividade principal pode ser um bom ponto de partida para organizar o restante com flexibilidade. Com irmãos de idades diferentes, considere alguns momentos separados, quando a composição da família permitir. Todos ganham quando o menor pode descansar e o maior encontra espaço para aprofundar um interesse.

Escolha a hospedagem pensando em como vocês vão viver ali. Nas casas da nossa coleção, observamos a distribuição dos quartos, os espaços de convivência, a segurança para crianças, a distância dos passeios e o apoio disponível. Uma mesa onde todos possam comer juntos, um lugar tranquilo para a soneca e a possibilidade de preparar uma refeição simples influenciam a experiência diária. Quando a viagem pede um hotel, o mesmo cuidado orienta a escolha. A hospedagem precisa sustentar o ritmo da família.

Abra espaço para conhecer a vida do lugar. Uma visita a um mercado pode começar pela escolha dos ingredientes de uma refeição. Um encontro com um artesão pode permitir acompanhar uma técnica e fazer perguntas, quando essa visita faz parte do seu trabalho e ele recebe visitantes. Um guia que compreenda a família pode encontrar uma maneira de contar a história que desperte a curiosidade dos filhos. O valor está na qualidade da aproximação e no respeito a quem nos recebe.

Ajude a perceber as diferenças sem hierarquizá-las. Diante de um hábito desconhecido, experimente perguntar: “Como será que isso funciona aqui?” ou “Por que fazem dessa maneira?”. Observe também os comentários que fazemos como adultos. Nossos filhos acompanham a forma como tratamos as pessoas, reagimos ao que é novo e lidamos com uma dificuldade.

Preserve tempo sem programação. Voltar a um lugar de que gostaram, brincar, demorar à mesa ou mudar o plano depois de uma descoberta também pode fazer parte de uma viagem bem pensada. Escolher menos compromissos permite permanecer mais tempo onde houve interesse.

Esses cuidados cabem em diferentes viagens, próximas ou distantes. Um destino conhecido pode abrir uma descoberta nova quando mudamos a maneira de vivê-lo. A profundidade depende também da atenção que levamos conosco.

A distância entre querer e viver

A segunda coisa que me fez refletir foi um vídeo curto. Nele, alguém contava sobre um amigo que queria passar o Natal em Nova York, entre as luzes e a atmosfera da cidade.

Ao ouvir aquele desejo, perguntou se ele havia passado o Natal anterior lá. A resposta foi simples: “Não. No ano passado eu também queria”.

A história tem humor, mas reconheci nela algo que acontece com facilidade. Podemos repetir uma intenção por anos sem dar o primeiro passo para realizá-la.

Com filhos, há uma dimensão delicada nessa espera: enquanto procuramos a ocasião ideal, a família continua mudando. Mudam os interesses, as agendas, a disposição para certas experiências. Aquela conversa que faria sentido aos onze pode ganhar outra forma aos quinze.

Isso não precisa nos levar à pressa nem a uma viagem que não cabe no momento. Pode nos ajudar a tornar o desejo mais concreto. Escolher uma janela possível no calendário. Definir o que cabe no orçamento. Convidar os filhos para a conversa. Começar por alguns dias perto de casa, se essa for a possibilidade de agora.

Também vale prolongar o encontro depois da volta. Perguntar o que cada um gostaria de repetir, ouvir o que surpreendeu, preparar novamente uma comida que conheceram. As respostas podem revelar aspectos da viagem que nós, adultos, nem percebemos.

É por isso que acredito tanto em viajar com os filhos. Há espaço para conhecermos o mundo e, dentro dele, conhecermos melhor uns aos outros. Descobrimos o que desperta uma pergunta, o que pede acolhimento, o que já pode ser feito com mais autonomia.

Não conseguimos determinar o que cada viagem vai deixar. Podemos escolher como organizar os dias: com tempo para uma conversa se alongar, uma curiosidade encontrar resposta e cada filho descobrir o lugar à sua maneira.

E, quando escolhemos a próxima viagem, podemos começar por uma pergunta: que experiência gostaríamos de compartilhar com os filhos que temos hoje?

Hellen Pareto, fundadora da Blue Casas Afetivas

Leitura que motivou essa reflexão: reportagem do Estadão sobre viagens com crianças e diferentes faixas etárias.

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