Tenho observado como as viagens desse ano expuseram algo que raramente aparece nos roteiros: a verdade silenciosa de que ninguém viaja apenas para chegar a um lugar. Por trás de cada reserva, existe uma busca íntima, muitas vezes discreta, quase sempre emocional. Famílias que já não escolhem pelo calendário, pelo clima ou pela expectativa social do que combina com cada estação. Escolhem pelo que está vivo nelas agora. E isso muda tudo, porque desloca a viagem da geografia para o sentimento. De repente, viajar deixa de ser um movimento do corpo e passa a ser um movimento do olhar.
Em meio a tantos perfis diferentes, vimos destinos de inverno procurados não pela neve, mas pelas nuances da vida local. Praias visitadas fora do verão por quem deseja enxergar cores que o calor não revela. Dias chuvosos transformados em oportunidades de apresentar arte, história e silêncio aos filhos. Hotéis clássicos sendo reencontrados por famílias adultas que entendem que a memória também é um lugar. E houve quem escolhesse quinze dias numa cabana que parece saída de um filme, um lugar que só faz sentido para esquiadores que gostam de andar fora de pista e deixar que a neve seja o próprio caminho. A cada uma dessas histórias, entregamos nossa melhor energia. Porque quando alguém viaja para dentro de si, o destino inteiro se transforma.
Dentro da nossa casa, essa percepção também se impôs. Paris e Chamonix estavam no horizonte, mas a Helena, com sua clareza tão precoce, não estava interessada na neve agora. Sugeriu Miami. Dias azuis, inverno leve, um lugar que sem ela saber carrega lembranças nossas. E então a Disney entrou como história, não como parque. Ela está lendo um livro que percorre trezentos anos da história dos Estados Unidos e dos antepassados de Mickey Mouse, desde o embarque dos peregrinos ingleses no navio Mayflower até a ascensão da indústria cinematográfica nos anos 1920. Nessa narrativa, fatos históricos se encontram com personagens da ficção Disney, revelando curiosidades da colonização americana, da guerra da independência, da conquista do Oeste e de tudo o que moldou a cultura que deu origem ao universo Disney. E é curioso perceber como, para ela, a magia sempre vem acompanhada de contexto, origem e raízes. Talvez porque crianças intuitivas entendam o que muitos adultos esquecem: nada que dura nasce do nada.
Antes dessa viagem começar a tomar forma, algo me tocou de maneira profunda. Em agosto, recebemos no nosso evento o Sr. Gilberto Peralta, CEO da Airbus, uma presença que foi uma honra para todos nós. Durante uma conversa despretensiosa, ele comentou que, por viajar tanto a trabalho, nas férias ele não sente vontade de ir a lugar algum. Ele quer ficar. Quer pousar. Quer existir no próprio silêncio. Naquele momento, me lembrei imediatamente da pergunta que a Helena tinha me feito dias antes: se comissários de voo e pilotos gostam de viajar nas férias ou preferem ficar em casa. Contei essa história ali mesmo, com ela ao meu lado, e pude dizer quem era ele. Desde então, em cada decolagem, ela olha pela janela como quem busca uma referência no céu e pergunta se aquele avião é do Sr. Gilberto. É impossível colocar preço nessa cena. E é impossível não perceber que viajar também é isso: saber quando ir, mas também saber quando ficar.
Para muitos, a Disney poderia ser uma viagem superficial, consumista, exaustiva. Para nós, é história, é afeto, é identidade. É a chance de juntar paisagens externas com paisagens internas. Um pouco de parque, um pouco de mar, um pouco de nós. Não porque seja profundo por definição, mas porque decidimos viver desse jeito. E esse é o ponto: profundidade não está no destino. Está no olhar.
E talvez seja essa a provocação que fica. Viajar não é cumprir a temporada. Não é seguir a rota mais óbvia. Não é corresponder ao que os outros esperam. Viajar é escolher o sentimento que precisa acontecer agora. Se for verão nos Alpes, que seja. Se for inverno no litoral, que seja. Se for Disney, que seja. Não por convenção, mas por coerência interna. Que cada família tenha coragem de escolher o que pertence a ela e de honrar aquilo que precisa ser vivido, agora, sem justificativa, sem explicação, apenas porque sim.
Hellen Pareto | Blue Family Collection
Experiências de viagem que vão além do destino. Cada casa tem uma alma, e cada estadia é uma nova história.








