Viajar é a chance de viver devagar

Li um texto do Piangers essa manhã que me pegou de jeito. Ele falava sobre um verão em que a filha mais velha ficou mais alta que a mais nova. E como ele repetia pra elas: “até outro dia, vocês eram da altura dos meus joelhos”. Como a gente apressa a vida, né? Queremos acelerar os processos, sem realmente vivê-los.

Fiquei ali, com isso ecoando dentro de mim. A minha filha tem 9 anos. Em pouco tempo, vai estar da minha altura. Não que seja uma grande altura, rs, mas é no sentido de que, em breve, ela vai me olhar nos olhos sem que eu precise inclinar o rosto pra baixo. Isso me emociona. Me entristece um pouco, mas me alegra muito mais. Porque eu sei o quanto tenho vivido essa jornada com ela. Quantas aventuras extraordinárias, e quantos dias absolutamente comuns, só nós duas, e ao mesmo tempo, nós todos – Rodrigo, Gabriel, a nossa família inteira.

E quando olho pra nós, vejo que temos o nosso próprio jeito de ser família. Aqui, ninguém solta a mão de ninguém. Helena e Gabriel têm 7 anos de diferença, naturalmente vivem em fases distintas, têm interesses próprios, personalidades que não poderiam ser mais diferentes, e ainda assim, caminham juntos, de um jeito que talvez nem entendam ainda, mas que já faz todo o sentido. Rodrigo e eu temos a graça de estarmos presentes, realmente presentes. O nosso trabalho nos permite isso, e por isso os desafios de cada um, grandes ou pequenos, são de todos nós.

O privilégio de ver e viver o crescimento deles, nos dias banais e nos momentos mais marcantes, não passa despercebido. E chamo de extraordinários os dias inteiros que passamos juntos. Como nas férias, que são deles e não nossas, mas que escolhemos transformar num mix de trabalho e descoberta. Poderíamos viajar a trabalho sozinhos. Seria mais fácil, menos investimento de energia e de dinheiro. Mas escolhemos levar nossos filhos. Estar. Ensinar. Viver devagar esses dias.

Foram 25 dias assim. Planejamos com todo o cuidado porque sabíamos que seria uma viagem longa, cheia de deslocamentos. Fizemos a nossa parte e deixamos outra – a mais importante – simplesmente para ser vivida. Sem cronogramas rígidos, sem checklists. E foi essa parte que deu sentido a tudo. Dias dedicados uns aos outros.

Vimos Gabriel deixar a chupeta e a mamadeira sem que precisássemos intervir. Helena, sem perceber, começou a enrolar o macarrão no garfo como se sempre tivesse feito assim, e eu fiquei ali, entre o orgulho e a lembrança de quando ela segurava a colher do jeito errado e achava graça disso.

Testemunhei meus filhos se comunicando em outro idioma, se virando sozinhos. Eu vi. Eu estava lá. E também vi Helena realizar o sonho de conhecer Paris, de ficar diante da Torre Eiffel pela primeira vez. A chuva não dava trégua, mas nada disso importava. Os olhos dela brilharam, se encheram de lágrimas, e ela falou baixinho que sentia um frio na barriga. Naquele momento, entendi que certas experiências não se explicam – ficam gravadas na pele, na memória, no coração.

Então, me pergunto: pra que serve viajar? Só pra ver pontos turísticos? Pra passar o tempo fora?

Pra mim, viajar é a chance de viver devagar. De estar inteira com a minha família. E viver não é simplesmente passar o tempo. Viver exige presença, dedicação e uma boa dose de entrega.

E que privilégio é poder escolher viver assim.

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